sábado, 7 de outubro de 2017

trap-funk

Perdi uns bons versos no esquecimento do tempo.
Uma cantada boba, meu papo reto cheio de tédio,
vindo de uma mente confusa, mas afiada.
Caras palavras, o que eu falo tem muito valor, mas é de graça,
até mesmo as bobagens sem sentido, mentira, desculpas pelas bobagens.
Videoartes psicodélicas, trap funk, uns beats loko.
E os 15 reais da dose de tequila com abacaxi, menos os 6 golpes que eu derrubei dela na mesa mais os 2 que eu recuperei lambendo do cardápio.
Ninguém é dono de ninguém,
a gente se empresta e presta nas frestas da alma.
Por algumas horas moramos nos mesmo beijos e afetos.
Segue o baile, outro dia outra história,
disritmia da rotina.
Ninguém é dono de ninguém,
só que as vezes sarra na mesma batida.

sábado, 18 de março de 2017

a poesia foi embora de mim

a poesia foi embora dessa agenda,
porque comecei a usar o trello,
uma ferramenta virtual de organização de tarefas

a poesia foi embora de mim,
porque eu fiquei estudando filosofia,
que também é poesia, mas virou prosa
e linguagem mais ou menos técnica na academia

a poesia foi embora de mim,
porque ela ta na poesia do dalton,
ele sobrevive nas ruas
eu ajudo só pegando as letras,
cantando e fazendo poesia também, mas em forma de samba.

a poesia foi embora de mim,
mas foi para o meu pai
que escreve a rodo,
e quase toda semana me presenteia com um texto seu.

a poesia foi embora de mim,
porque você foi embora também,
fiquei te devendo, musica, pintura e de tudo um pouco.
mas foi porque eu fazia poesia da vida com você
não ligava para versos, só pra realidade
e por isso nunca tinha tempo pra escrever besteiras em um blog.

domingo, 12 de março de 2017

Pintura Coletiva


Trabalho proposto para a disciplina de Introdução ao Pensamento Filosófico.

Pintura coletiva - Bernardo

Em uma análise breve da nossa pintura coletiva, nota-se que em meio a muitos elementos de diversas cores, ela de certa forma trás uma sensação de unidade e harmonia mesmo que não seja algo absolutamente exato, como são as formas ideais e perfeitas da geometria na matemática. Nós aproximamos as representações de um macrocosmo: como galáxias, desenhos dos movimentos elípticos dos planetas e etc, ao microcosmo:  em representações extremamente particulares como as nossas mão carimbadas com tinta. Pensando na história da filosofia, essas questões são extremamente presentes, como no pensamento de Heráclito:

8. Tudo se faz por contraste, da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia.

10. Correlações: completo e incompleto, concorde e discorde, harmonia e desarmonia, e todas as coisas, um, e de um, todas as coisas.

"Fragmentos - O Mobilismo" Heráclito de Éfeso - Textos Básicos de Filosofia - Dos prés-socráticos a Wittgenstein por Danilo Marcondes.

sábado, 4 de março de 2017

bernalina, um slam

Bernalina é pixo
Mas estamos na era Dória
Não tá favorável, nem tranquilo, nem daora
Mas amor, eu virei poeta, e você virou artista
2017, além de ser o ano lírico,
Também foi o ano das conquista
Minha poesia voa com o vento,
Tua arte de rua também apaga
Nossa arte é efêmera
Mas se a gente mantém a chama acesa
Pode crer que ela não acaba
Seus compromissos focados
E meus devaneios com a vida
Por hora, impedem de viver o bernalina
Mas a gente vai fazer o que?
Se as coisas acontecem exatamente
De jeito que elas devem acontecer

Mas se nois for perceber
A gente teve uma fusão
Volta a fita, o tempo é 2015
O espaço, nosso mundo,
Você lá todo lobo solitário,
E eu sociável, de amigos e rolês era cercada
Mas parece que o jogo virou né kiridinho
Hoje esse aí é você
Realizando teu proceder
Dá forma que tem que ser.
E eu aqui sonhadora
escrevendo meus versos
E com meus problemas,
Que são meus
Vou resolver sozinha
Não sou muleta pros verme
(Dos meus pensamentos)
Por isso sigo sozinha.

Ainda sou confusão
Por dentro, em estado de ebulição
Aprendendo a lidar
Com minha própria solidão.
E com os outros olhando pra minha cara inchada chorando no busão
Eu ein… mas ae,
Isso não é ruim não
Hoje eu tô explorando esse universo
Que é meu corpo, mente e coração

Porra, rimei solidão com coração
A que ponto chegamos kk
Logo eu que era tão hater dessas melação
Mas amor, eu virei poeta
Posso não ter mais
Os amigos
As amigas
O namorado
A família
Mas tenho meus versos
Os versos dos slameros
Tenho o RAP
Tenho o pós colonialismo
Tenho o feminismo
Tenho a filosofia
Tenho a arte
Tenho o sol e a lua
Que nascem e morrem todo dia
Aos poucos aprendi a não depender de ninguém,
E mais aos poucos ainda estou aprendendo a não depender de você, meu bem.

Não vou negar
Que ando tendo uns demônios acordados
E que me custa colocá-los pra ninar
E estão aí, desde 2013
A paranóia da solidão vira e mexe vem me assombrar.
Mas ela é um fato
O que nos resta é saber lidar
Nascemos e morremos sozinhos
E nesse meio tempo é difícil saber em quem confiar.
Aí eu me fecho
Mas afasto do mundo
Não sei se o problema são as pessoas
Ou eu, que vejo problema em todo mundo
E entro nessa brisa de mergulhar bem mais profundo.
Mas já diria o poeta:
Essa é a minha maldição
Seguir sozim na multidão,
Com todas incerteza envenenando o coração

Por isso imploro pela nossa despedida
Pra que seja mais leve seguir a vida assim
Sem a noia de saber “Ain, será que ele ainda pensa em mim?”
SENDO QUE ESSAS BRISAS NÃO SÃO QUE NEM A DO DOCE OU DO BECK
A gente não escolhe a hora em que ela vai bater
E quando você vê, cê tá pedindo socorro pra si mesma pra não padecer
Fui infantil? Pode pa, pode ate ser
Mas tá na hora de revermos nossos conceitos
Tanto eu quanto você

Mas eu sei que sou forte pra caralho
Tenho meus corres, meus projetos,
E muitas ferramentas pra conseguir contribuir
Com aquele lance de um mundo melhor e igualitário
E quando minha mente tá saudável e equilibrada
Ela é uma excelente canalizadora de energia positiva, paz interior e tática de guerrilha
E eu sou muito mais que uma dependência emocional
Eu sou vida, eu sou sangue correndo nas veias de forma transcendental
Eu sou muito mais que uma aceitação
Sou muito mais que a constante adaptação
E que o encaixe em um calendário corrido e workaholico
Eu sou plena, caralho!
E por que nesse tempo todo isso não me pareceu lógico?

Então peço licença
Pra por fim nesse rolê,
Que tá a cada vez mais se bagunçando
Eu sofro, você sofre
E no fim ninguém sai ganhando
Já diria Amy Winehouse
O amor é um jogo perdido
E no momento,
Acabei com todas as minhas fichas apostando-as em você
Mas não ache que a culpa é sua
Eu que calculei mal
A quantidade
A hora certa de apostar
Minha intensidade me afogou
Mas amor, eu virei poeta
Essas novas fichas de aposta
Nascerão das minhas linhas, das minhas sinas
Mas essas
Ahhh, essas apostarei em mim
Porque eu sou minha própria promessa
A única que de fato tava lá
Quando ninguém viu
E ainda tenho muito pra me surpreender

E é nessas que eu me despeço
Nosso conceito de “dar um tempo” acabou sendo diverso
Eu sofria cada vez mais
Por te ver cada vez menos
E você queria seu espaço
E eu não tava percebendo
Me senti rejeitada
Pelos rolês que não fui chamada
Mas amor, eu virei poeta,
Comigo agora é tudo ou nada
Desaprendi a viver de meios termos
Parece clichê
Mas agora eu entendo
Toda essa gente louca
Que metia o louco
Falando sobre não aceitar pouco
Mas deixo também meu obrigada
Por me fazer ver
Que quando o momento tá favorável
Até existe uma possibilidade de viver coisas maravilhosas
É possível soltar uns sorrisos singelos do nada

Mas na mesma intensidade, a ausência disso dói
Mas não é uma experiência ruim não
Eu sofrer demais
Significa que eu amei demais

Carolina Yume

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Prova de Habilidades - Vestibular Vunesp 2017

1. Desenhe um autorretrato em preto e branco.

2. Desenhe um autorretrato com cores e metáforas.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Tatuagem

A minha perna esquerda: bananeiras e quem sabe serpentes
Nas costas voando com as asas da deusa Maat que também acompanham Rihanna
Antebraço direito uma arvore baobá
O peito carrega uma mandala feita do sol e os planetas do sistema solar até os ombros
antebraço esquerdo molécula de água representação atômica, mas já desisti tem que jogar isso em outro lugar
As reliquias da morte com certeza vão ficar a cima do cotovelo esquerdo
Minha constelação de escorpião e a lua vão ficar em algum lugar com as coordenadas geográficas da minha casa
O abdomen vai estar escrito Panta Rhei em letras xicanas com a filosofia do Heráclito
E no pescoço queria ter um gavião-peneira voando...

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Filosofia Afroperspectivista: A Ancestralidade Viva.

Título do Projeto: Filosofia Afroperspectivista: A Ancestralidade Viva.

1.                  Resumo
O propósito deste projeto é estudar e situar de forma mais abrangente a filosofia afroperspectivista, isto é, temas de filosofia africana e afrodiaspórica articulados em uma noção filosófica de ancestralidade, seja analisando e retomando questões de pensadores africanos atuais e do passado, seja, investigando profundamente os problemas e as relações étnico-raciais contemporâneas da população afrodescendente pelo planeta, como no caso da população negra do Brasil. Trata-se de um tema bastante recente na história da filosofia ocidental, fruto de uma profunda crítica pós-colonial e epistemológica da disciplina, e que pode e deve contribuir para a formação de sociedades mais igualitárias e livres de todas as formas de racismo, além de ampliar os horizontes reflexivos e produzir uma leitura mais verdadeira e legítima da forma como se lida com a história mundial.

Palavras-chave: Filosofia Africana, Filosofia Afrodiaspórica, Racismo, Relações Étnico-Raciais, Pós-Colonialismo, Epistemologia.

2.                  Introdução e Justificativa
De um ponto de vista abrangente a filosofia pode desenvolver maneiras de articular a reflexão e estruturar o pensamento com questões transversais recorrentes do cotidiano, isso significa que a atividade filosófica através de um exercício crítico e reflexivo pode criar um discurso que torne visível em sua potencialidade, por exemplo, às origens culturais, o senso de pertencimento a uma classe social, as distinções de gênero, de sexualidade, de etnia e de geração dos seres humanos, ou seja, muito dos aspectos que atravessam a própria realidade e que podem ser refletidos pela razão. Contudo e mais especificamente, a tradição filosófica foi em certa medida um campo que fez e faz poucos debates a respeito das relações étnico-raciais, do racismo anti-negro, sobre os desdobramentos das relações entre colonização, política e a invisibilidade concernente aos saberes africanos, essas práticas de apagamento são definidas por especialistas no tema como manifestações do racismo epistêmico, em que o ponto de vista europeu se prevalece e se impõe como perspectiva única e central na produção do conhecimento.
No fim, o que é próprio da filosofia e pode contribuir, por exemplo, para horizontes antirracistas na sociedade brasileira? O que a filosofia tem a dizer sobre o racismo? Existem pontos de contato entre a filosofia e a história da África? Responder essas questões significa entrar em um debate atual e necessário para o desenvolvimento de um conhecimento plural, a formação filosófica é um processo contínuo, nunca se termina de aprender e nem de se ensinar, e para que alguém possa ser sujeito ativo e atuante dessa aprendizagem, é preciso que a filosofia assuma o seu papel como instrumento de desconstrução e desmistificação desses problemas, com isso dando a possibilidades de se construir novos mundos no presente. 
Esta discussão inicial alinha-se ao contexto político brasileiro em que se vigora a lei número 10.639/03 que torna obrigatória em todas as modalidades de ensino e níveis de educação os estudos de História e Culturas, Africanas e Indígenas.
E se propõe a apontar como a investigação filosófica se insere nesse arranjo, como dito anteriormente na medida em que ela problematiza o mundo ao redor desperta um olhar filosófico e uma atitude crítica que é capaz de estremecer as concepções do senso comum. Nesse sentido como destaca magistralmente o filósofo brasileiro Eduardo David de Oliveira, a Filosofia da Ancestralidade, ideia central em seus estudos, aparece na encruzilhada do pensamento contemporâneo. Ela se coloca no meio dos estudos pós-coloniais e dialoga intensamente com o pensamento negro-africano, afrodiaspórico e no nesse caso com o pensamento social negro brasileiro e latino-americano.

2.1.            Filosofia e História da África
Infelizmente o continente africano carregado de diversidade cultural e os mais variados modos de vida foi definido pela antiguidade greco-romana como um espaço desprovido de ‘civilidade’, essa lógica vai influenciar futuramente os próximos filósofos e vai implicar na ideia de que a filosofia desenvolvida em qualquer outra região que não fosse a europeia seja “automaticamente” deslegitimada. Reforçando a prática histórica do eurocentrismo colonial que perpetua a ideia de que existem povos menos desenvolvidos e epistemologicamente imaturos, ao passo que o povo europeu seria o mais superior na escala de desenvolvimento. Como é feito por Kant em uma declaração no século XVIII:
“Os negros da África não possuem, por natureza, nenhum sentimento que se eleve acima do ridículo, o senhor Hume desafia qualquer um a citar um único exemplo em que um negro tenha mostrado talentos, e afirma: dentre os milhões de pretos que foram deportados de seus países, não obstante muitos deles terem sido postos em liberdade, não se encontrou um único sequer que apresentasse algo grandioso na arte ou na ciência, ou em qualquer outra aptidão.” (KANT, ‘Observações sobre o sentimento do belo e do sublime’, apud NOGUERA, 2011)
Essa falsa ideia de hegemonia construída a base da violência e da destruição dos conhecimentos locais, no nosso caso da colonização do continente africano, passou a desqualificar e invisibilizar os saberes tradicionais, proporcionando uma completa desconsideração do pensamento filosófico e estruturado de diversos povos, esse fenômeno é chamado de racismo epistêmico¹, e pode ser entendido como a desqualificação de qualquer pensamento que não seja o ocidental, e no caso da filosofia, o racismo epistêmico sustenta que apenas o pensamento ocidental pode garantir um olhar e qualificar o status filosófico e de veracidade de qualquer outro saber mesmo os menos abstratos. Com isso, essa desqualificação culmina na zoormofização sistemática desses povos fundamentando, por exemplo, noções que embasaram a escravização da população negra e que até hoje inspiram ofensas raciais baseadas em injúrias que comparam pessoas negras a outros animais. Recusando assim de forma completamente equivocada a existência de elementos presentes em todos os seres humanos em suas mais diversas sociedades e civilizações: a capacidade de pensar e refletir criticamente sobre a realidade. Nesse sentido, como a filosofia se desvincula do racismo epistêmico? E como ela pode ser capaz de suscitar questões relacionadas às relações étnicos raciais? É, justamente, problematizando a si mesma que a filosofia encontra o caminho de articulação, encarando esse desafio de frente ela vai ser capaz de romper essas limitações e reescrever a história da filosofia agora em uma lógica afroperspectivista.
Logo, uma primeira questão que surge é problematizar a própria origem da filosofia sendo considera exclusivamente grega para muitos autores da tradição, uma vez que essa constatação é invariavelmente problemática por ser marcada pelo racismo epistêmico.

1-       Ver NOGUERA, Renato. O ensino de filosofia e a lei 10.639. Rio de Janeiro: CEAP, 2011 pg. 19.

2.2.             Filosofia Afroperspectivista e a Ancestralidade.
Dentro da própria história da filosofia exclusivamente grego-romana essa origem já se coloca como um assunto polêmico, onde teoricamente ela é apresentada por muitos autores com uma transição ‘forçada’ de um momento histórico mitológico para um momento histórico mais racional do pensamento grego, a linha que divide esses períodos na verdade é bem mais complexa e nebulosa. E com essa ambiguidade aparecem ainda mais novos problemas colocados pelos pensadores atuais que contestam o apagamento da influência direta do pensamento egípcio e árabe, que em meio a um período cultural da antiguidade era marcada por relações de trocas de todos os tipos e pelos mais variados atores, filósofos como Pitágoras afirmam em seus próprios escritos ter estudado no Egito e atribui grande parte de suas concepções filosóficas a esse período de estudos na África. (CARREIRA, 1994)
Se a filosofia não “nasceu” na Grécia, onde então ela teria a sua origem? Com a constatação do potencial e faculdades humanas essa ideia de origem ou superioridade de pensamento fica abalada e praticamente insustentável. A partir deste questionamento e observado de um ponto de vista mais histórico alguns estudos apontam que os primeiros registros escritos da filosofia, enquanto pensamento analítico e estruturado surgem na África, e mais precisamente no Egito Antigo, que se destaca como uma das civilizações mais sofisticadas e amplamente desenvolvidas da história do mundo. A partir das pesquisas realizadas por Cheikh Anta Diop conseguiram-se provas de que a população do antigo Egito era negra. O pesquisador conseguiu isolar e medir a concentração de melanina, através da exumação de múmias e constatou-se que se tratava de membros negros da civilização egípcia (NOGUERA 2011). Então, por que nos dias de hoje, por exemplo, a civilização do Egito antigo ainda é retratada majoritariamente como branca em diversas obras da mídia?
 É a partir de práticas de apropriação cultural que nega o intercâmbio comum dos saberes entre os povos e que apaga a história real dessas trocas, é que se faz necessária a recuperação da ancestralidade negra, pois só assim as pessoas negras poderão se reconhecer como parte fundamental na constituição de um pensamento filosófico e da própria história mundial. E as demais etnias e povos vão poder ter uma noção mais adequada e realista da produção histórica dos conhecimentos.
Nesse sentindo, conforme apontado pelo filósofo brasileiro Renato Noguera um dos livros mais antigos da civilização egípcia é o Maat, escrito entre 1580A. C. à 1200A. C. A obra reúne mitos e postulados filosóficos africanos resultado da reflexão de vários autores. Erroneamente traduzido como Livro dos Mortos, o Maat é mais precisamente o Livro da Verdade, e representa um grande trabalho a respeito de muitos temas feitos pelos filósofos egípcios. Filósofos como Ptah-Hotep (2414 a.c), Amenemope (1290 a.c), Imhotep (2700 a.c), entre outros, deixaram papiros com os seus escritos e postulados filosóficos com reflexões sobre a ética, o amor, a existência, a vida após a morte, ou seja, diversas questões relativas à condição humana inerente de cada civilização. Nesses escritos o termo mais próximo de “filosofia” aparece em hieróglifos através da denominação “rekhet” muito antes de Tales de Mileto e Sócrates falarem de Φιλοσοφία(Filosofia) propriamente.
Para conceituar de forma mais nítida o legado de manifestações como essas do pensamento egípcio e seu legado para o presente e o futuro, como também conceituar as contribuições da cultura material e riqueza simbólica de outros momentos e lugares, os afrodescendentes têm a necessidade de reintroduzir a África ‘perdida’ no solo brasileiro e no mundo, seja através de uma recriação mais ou menos ideal, logo que nunca vai ser possível recriar o passado absolutamente no presente sem cair em uma caricatura.
  Mas sim recriar epistêmica, política, artística e até mesmo econômica a inclusão ancorada na experiência negro-africana no Brasil, que se manifesta através da sua forma cultural seja na capoeira de angola, no Candomblé, ou em exemplos de lógicas de sobrevivência anticapitalistas nas economias solidárias das favelas, etc. Para tanto é necessário se valer de pensamentos como os de Eduardo David de Oliveira, e sua afroperspectiva Filosofia da Ancestralidade que ele define como:
“O regime singular que os africanos souberam produzir tanto na Diáspora quanto na África. Regime abrangente capaz de englobar todas as experiências de africanos e afrodescendentes e, ao mesmo tempo, singularizar cada experiência com seu sentido específico, forjado no calor do acontecimento. Aqui, Ancestralidade é, então, mais que um conceito ou categoria do pensamento. Ela se traduz numa experiência de forma cultural que, por ser experiência, é já uma ética, uma vez que confere sentido às atitudes que se desdobram de seu útero cósmico até tornarem-se criaturas nascidas no ventre-terra deste continente metafórico que produziu sua experiência histórica, e desse continente histórico que produziu suas metonímias em territórios de além-mar, sem duplicar, mas mantendo uma relação trans-histórica e trans-simbólica com os territórios para onde a sorte espalhou seus filhos.” (OLIVEIRA, 2012)
Logo a Ancestralidade torna-se um conceito e categoria extremamente potente capaz de dialogar com a experiência africana em solo brasileiro e no solo do resto do mundo. Se traduzindo em um território compartilhado no simbólico e no físico, ou seja, que se faz no corpo de si e no corpo dos outros através de uma série de trocas intersubjetivas do legado do passado no tempo presente. Afirmar uma filosofia afroperspectivista possibilita a valorização do pensamento de outros povos que não seja apenas o discurso único do povo europeu no mundo atual, assim como também faz o discurso da filosofia da libertação latino-americana, essa filosofia é uma forma de escapar da etnocentralidade e passar a limpo a história da humanidade, tendo um resultado de impacto grandioso.
Baseada em um fundamento ontológico e epistemológico a Filosofia da Ancestralidade, é capaz de dar um programa fecundo para a educação das relações étnico-raciais no Brasil e no resto do mundo. Cultivando um legado com rico manancial epistêmico para o empoderamento e emancipação do pensamento de jovens negras e negros no ensino médio que se veem marginalizados e oprimidos, por exemplo, pelo próprio discurso filosófico europeu, que também por outro lado nesse embate polifônico da tradição pode ser potencializado e enriquecido pela contribuição do pensamento de todos os povos, independente da sua localização no planeta.

3.                  Metodologia
Este projeto esboça um estudo interdisciplinar entre Filosofia, História e outras áreas das humanidades. De um modo mais abrangente, podemos enquadrá-lo dentro do escopo e do foco da Filosofia, uma vez que a maioria das referências partem desta área. De acordo com H. S. Gentil (2005, p. 173), no campo da Filosofia “de modo geral aceita-se que a metodologia de pesquisa define-se basicamente pela leitura e a reflexão, incluindo o levantamento bibliográfico e a seleção da bibliografia pertinente como atividades indispensáveis”. De acordo com isso, serão realizadas análises e discussões dos conteúdos mencionados na bibliografia inicial selecionada (e, caso haja necessidade, de outros títulos), através da leitura e reflexão, incluindo registros do material estudado que formarão os relatórios a serem entregues no decorrer da pesquisa. 
4.                  Objetivos e Metas
Espera-se, depois dessa discussão inicial ampliar e potencializar os resultados do exercício da reflexão e interpretação da bibliografia acerca da compreensão da filosofia afroperspectivista e seus conceitos relacionados, a fim de também produzir um material adequado e introdutório do tema com a Ética de Amen-em-ope, para assim ser apresentado e servir de suporte nas aulas de Filosofia, História e demais disciplinas das humanidades no ensino médio, regida e incentivada pela lei 10.639/03.
5.                  Cronograma

6.                  Referências Bibliográficas:
CARREIRA, José. “Filosofia antes dos Gregos”.  Mem Martins: Publicações Europa-América, 1994.

GENTIL, H.S. “Convite à pesquisa em Filosofia e Ciências Humanas - Orientações básicas para elaboração de um projeto”. Integração - Ano XI, Nº 41, pgs 169-174, Junho/2005.

NOGUERA, Renato. “O ensino de filosofia e a lei 10.639”. Rio de Janeiro: CEAP, 2011.

NOGUERA, Renato. "A ética da serenidade: O caminho da barca e a medida da balança na filosofia de Amen-em-ope" Ensaios Filosóficos, Volume VIII – Dezembro/2013.

NOGUERA, Renato. “O conceito de drible e o drible do conceito: analogias entre a história do negro no futebol brasileiro e do epistemicídio na filosofia” Revista Z Cultural. http://revistazcultural.pacc.ufrj.br/o-conceito-de-drible-e-o-drible-do-conceito-analogias-entre-a-historia-do-negro-no-futebol-brasileiro-e-do-epistemicidio-na-filosofia/ (acesso em Julho de 2016).

OLIVEIRA, Eduardo David de. “Filosofia da ancestralidade como filosofia africana: Educação e cultura afro-brasileira”. Revista Sul-Americana de Filosofia e Educação. Número 18: maio-outubro/2012, p. 28-47.

RAMOSE, Mogobe. “Sobre a legitimidade e o estudo da filosofia africana”. Tradução Dirce Eleonora Nigro Solis, Rafael Medina Lopes e Roberta Ribeiro Cassiano. In: Ensaios Filosóficos, Volume IV, Outubro/2011.

SANTOS, Luis Carlos. “Ancestralidade e liberdade: Em torno de uma filosofia africana no Brasil”. Revista Sul-Americana de Filosofia e Educação. Número 18: maio-outubro/2012, p. 48-61.