a poesia foi embora dessa agenda,
porque comecei a usar o trello,
uma ferramenta virtual de organização de tarefas
a poesia foi embora de mim,
porque eu fiquei estudando filosofia,
que também é poesia, mas virou prosa
e linguagem mais ou menos técnica na academia
a poesia foi embora de mim,
porque ela ta na poesia do dalton,
ele sobrevive nas ruas
eu ajudo só pegando as letras,
cantando e fazendo poesia também, mas em forma de samba.
a poesia foi embora de mim,
mas foi para o meu pai
que escreve a rodo,
e quase toda semana me presenteia com um texto seu.
a poesia foi embora de mim,
porque você foi embora também,
fiquei te devendo, musica, pintura e de tudo um pouco.
mas foi porque eu fazia poesia da vida com você
não ligava para versos, só pra realidade
e por isso nunca tinha tempo pra escrever besteiras em um blog.
sábado, 18 de março de 2017
domingo, 12 de março de 2017
Pintura Coletiva
Trabalho proposto para a disciplina de Introdução ao Pensamento Filosófico.
Pintura coletiva - Bernardo
Em uma análise breve da nossa pintura coletiva, nota-se que em meio a muitos elementos de diversas cores, ela de certa forma trás uma sensação de unidade e harmonia mesmo que não seja algo absolutamente exato, como são as formas ideais e perfeitas da geometria na matemática. Nós aproximamos as representações de um macrocosmo: como galáxias, desenhos dos movimentos elípticos dos planetas e etc, ao microcosmo: em representações extremamente particulares como as nossas mão carimbadas com tinta. Pensando na história da filosofia, essas questões são extremamente presentes, como no pensamento de Heráclito:
8. Tudo se faz por contraste, da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia.
10. Correlações: completo e incompleto, concorde e discorde, harmonia e desarmonia, e todas as coisas, um, e de um, todas as coisas.
"Fragmentos - O Mobilismo" Heráclito de Éfeso - Textos Básicos de Filosofia - Dos prés-socráticos a Wittgenstein por Danilo Marcondes.
sábado, 4 de março de 2017
bernalina, um slam
Bernalina é pixo
Mas estamos na era Dória
Não tá favorável, nem tranquilo, nem daora
Mas amor, eu virei poeta, e você virou artista
2017, além de ser o ano lírico,
Também foi o ano das conquista
Minha poesia voa com o vento,
Tua arte de rua também apaga
Nossa arte é efêmera
Mas se a gente mantém a chama acesa
Pode crer que ela não acaba
Seus compromissos focados
E meus devaneios com a vida
Por hora, impedem de viver o bernalina
Mas a gente vai fazer o que?
Se as coisas acontecem exatamente
De jeito que elas devem acontecer
Mas se nois for perceber
A gente teve uma fusão
Volta a fita, o tempo é 2015
O espaço, nosso mundo,
Você lá todo lobo solitário,
E eu sociável, de amigos e rolês era cercada
Mas parece que o jogo virou né kiridinho
Hoje esse aí é você
Realizando teu proceder
Dá forma que tem que ser.
E eu aqui sonhadora
escrevendo meus versos
E com meus problemas,
Que são meus
Vou resolver sozinha
Não sou muleta pros verme
(Dos meus pensamentos)
Por isso sigo sozinha.
Ainda sou confusão
Por dentro, em estado de ebulição
Aprendendo a lidar
Com minha própria solidão.
E com os outros olhando pra minha cara inchada chorando no busão
Eu ein… mas ae,
Isso não é ruim não
Hoje eu tô explorando esse universo
Que é meu corpo, mente e coração
Porra, rimei solidão com coração
A que ponto chegamos kk
Logo eu que era tão hater dessas melação
Mas amor, eu virei poeta
Posso não ter mais
Os amigos
As amigas
O namorado
A família
Mas tenho meus versos
Os versos dos slameros
Tenho o RAP
Tenho o pós colonialismo
Tenho o feminismo
Tenho a filosofia
Tenho a arte
Tenho o sol e a lua
Que nascem e morrem todo dia
Aos poucos aprendi a não depender de ninguém,
E mais aos poucos ainda estou aprendendo a não depender de você, meu bem.
Não vou negar
Que ando tendo uns demônios acordados
E que me custa colocá-los pra ninar
E estão aí, desde 2013
A paranóia da solidão vira e mexe vem me assombrar.
Mas ela é um fato
O que nos resta é saber lidar
Nascemos e morremos sozinhos
E nesse meio tempo é difícil saber em quem confiar.
Aí eu me fecho
Mas afasto do mundo
Não sei se o problema são as pessoas
Ou eu, que vejo problema em todo mundo
E entro nessa brisa de mergulhar bem mais profundo.
Mas já diria o poeta:
Essa é a minha maldição
Seguir sozim na multidão,
Com todas incerteza envenenando o coração
Por isso imploro pela nossa despedida
Pra que seja mais leve seguir a vida assim
Sem a noia de saber “Ain, será que ele ainda pensa em mim?”
SENDO QUE ESSAS BRISAS NÃO SÃO QUE NEM A DO DOCE OU DO BECK
A gente não escolhe a hora em que ela vai bater
E quando você vê, cê tá pedindo socorro pra si mesma pra não padecer
Fui infantil? Pode pa, pode ate ser
Mas tá na hora de revermos nossos conceitos
Tanto eu quanto você
Mas eu sei que sou forte pra caralho
Tenho meus corres, meus projetos,
E muitas ferramentas pra conseguir contribuir
Com aquele lance de um mundo melhor e igualitário
E quando minha mente tá saudável e equilibrada
Ela é uma excelente canalizadora de energia positiva, paz interior e tática de guerrilha
E eu sou muito mais que uma dependência emocional
Eu sou vida, eu sou sangue correndo nas veias de forma transcendental
Eu sou muito mais que uma aceitação
Sou muito mais que a constante adaptação
E que o encaixe em um calendário corrido e workaholico
Eu sou plena, caralho!
E por que nesse tempo todo isso não me pareceu lógico?
Então peço licença
Pra por fim nesse rolê,
Que tá a cada vez mais se bagunçando
Eu sofro, você sofre
E no fim ninguém sai ganhando
Já diria Amy Winehouse
O amor é um jogo perdido
E no momento,
Acabei com todas as minhas fichas apostando-as em você
Mas não ache que a culpa é sua
Eu que calculei mal
A quantidade
A hora certa de apostar
Minha intensidade me afogou
Mas amor, eu virei poeta
Essas novas fichas de aposta
Nascerão das minhas linhas, das minhas sinas
Mas essas
Ahhh, essas apostarei em mim
Porque eu sou minha própria promessa
A única que de fato tava lá
Quando ninguém viu
E ainda tenho muito pra me surpreender
E é nessas que eu me despeço
Nosso conceito de “dar um tempo” acabou sendo diverso
Eu sofria cada vez mais
Por te ver cada vez menos
E você queria seu espaço
E eu não tava percebendo
Me senti rejeitada
Pelos rolês que não fui chamada
Mas amor, eu virei poeta,
Comigo agora é tudo ou nada
Desaprendi a viver de meios termos
Parece clichê
Mas agora eu entendo
Toda essa gente louca
Que metia o louco
Falando sobre não aceitar pouco
Mas deixo também meu obrigada
Por me fazer ver
Que quando o momento tá favorável
Até existe uma possibilidade de viver coisas maravilhosas
É possível soltar uns sorrisos singelos do nada
Mas na mesma intensidade, a ausência disso dói
Mas não é uma experiência ruim não
Eu sofrer demais
Significa que eu amei demais
Carolina Yume
Mas estamos na era Dória
Não tá favorável, nem tranquilo, nem daora
Mas amor, eu virei poeta, e você virou artista
2017, além de ser o ano lírico,
Também foi o ano das conquista
Minha poesia voa com o vento,
Tua arte de rua também apaga
Nossa arte é efêmera
Mas se a gente mantém a chama acesa
Pode crer que ela não acaba
Seus compromissos focados
E meus devaneios com a vida
Por hora, impedem de viver o bernalina
Mas a gente vai fazer o que?
Se as coisas acontecem exatamente
De jeito que elas devem acontecer
Mas se nois for perceber
A gente teve uma fusão
Volta a fita, o tempo é 2015
O espaço, nosso mundo,
Você lá todo lobo solitário,
E eu sociável, de amigos e rolês era cercada
Mas parece que o jogo virou né kiridinho
Hoje esse aí é você
Realizando teu proceder
Dá forma que tem que ser.
E eu aqui sonhadora
escrevendo meus versos
E com meus problemas,
Que são meus
Vou resolver sozinha
Não sou muleta pros verme
(Dos meus pensamentos)
Por isso sigo sozinha.
Ainda sou confusão
Por dentro, em estado de ebulição
Aprendendo a lidar
Com minha própria solidão.
E com os outros olhando pra minha cara inchada chorando no busão
Eu ein… mas ae,
Isso não é ruim não
Hoje eu tô explorando esse universo
Que é meu corpo, mente e coração
Porra, rimei solidão com coração
A que ponto chegamos kk
Logo eu que era tão hater dessas melação
Mas amor, eu virei poeta
Posso não ter mais
Os amigos
As amigas
O namorado
A família
Mas tenho meus versos
Os versos dos slameros
Tenho o RAP
Tenho o pós colonialismo
Tenho o feminismo
Tenho a filosofia
Tenho a arte
Tenho o sol e a lua
Que nascem e morrem todo dia
Aos poucos aprendi a não depender de ninguém,
E mais aos poucos ainda estou aprendendo a não depender de você, meu bem.
Não vou negar
Que ando tendo uns demônios acordados
E que me custa colocá-los pra ninar
E estão aí, desde 2013
A paranóia da solidão vira e mexe vem me assombrar.
Mas ela é um fato
O que nos resta é saber lidar
Nascemos e morremos sozinhos
E nesse meio tempo é difícil saber em quem confiar.
Aí eu me fecho
Mas afasto do mundo
Não sei se o problema são as pessoas
Ou eu, que vejo problema em todo mundo
E entro nessa brisa de mergulhar bem mais profundo.
Mas já diria o poeta:
Essa é a minha maldição
Seguir sozim na multidão,
Com todas incerteza envenenando o coração
Por isso imploro pela nossa despedida
Pra que seja mais leve seguir a vida assim
Sem a noia de saber “Ain, será que ele ainda pensa em mim?”
SENDO QUE ESSAS BRISAS NÃO SÃO QUE NEM A DO DOCE OU DO BECK
A gente não escolhe a hora em que ela vai bater
E quando você vê, cê tá pedindo socorro pra si mesma pra não padecer
Fui infantil? Pode pa, pode ate ser
Mas tá na hora de revermos nossos conceitos
Tanto eu quanto você
Mas eu sei que sou forte pra caralho
Tenho meus corres, meus projetos,
E muitas ferramentas pra conseguir contribuir
Com aquele lance de um mundo melhor e igualitário
E quando minha mente tá saudável e equilibrada
Ela é uma excelente canalizadora de energia positiva, paz interior e tática de guerrilha
E eu sou muito mais que uma dependência emocional
Eu sou vida, eu sou sangue correndo nas veias de forma transcendental
Eu sou muito mais que uma aceitação
Sou muito mais que a constante adaptação
E que o encaixe em um calendário corrido e workaholico
Eu sou plena, caralho!
E por que nesse tempo todo isso não me pareceu lógico?
Então peço licença
Pra por fim nesse rolê,
Que tá a cada vez mais se bagunçando
Eu sofro, você sofre
E no fim ninguém sai ganhando
Já diria Amy Winehouse
O amor é um jogo perdido
E no momento,
Acabei com todas as minhas fichas apostando-as em você
Mas não ache que a culpa é sua
Eu que calculei mal
A quantidade
A hora certa de apostar
Minha intensidade me afogou
Mas amor, eu virei poeta
Essas novas fichas de aposta
Nascerão das minhas linhas, das minhas sinas
Mas essas
Ahhh, essas apostarei em mim
Porque eu sou minha própria promessa
A única que de fato tava lá
Quando ninguém viu
E ainda tenho muito pra me surpreender
E é nessas que eu me despeço
Nosso conceito de “dar um tempo” acabou sendo diverso
Eu sofria cada vez mais
Por te ver cada vez menos
E você queria seu espaço
E eu não tava percebendo
Me senti rejeitada
Pelos rolês que não fui chamada
Mas amor, eu virei poeta,
Comigo agora é tudo ou nada
Desaprendi a viver de meios termos
Parece clichê
Mas agora eu entendo
Toda essa gente louca
Que metia o louco
Falando sobre não aceitar pouco
Mas deixo também meu obrigada
Por me fazer ver
Que quando o momento tá favorável
Até existe uma possibilidade de viver coisas maravilhosas
É possível soltar uns sorrisos singelos do nada
Mas na mesma intensidade, a ausência disso dói
Mas não é uma experiência ruim não
Eu sofrer demais
Significa que eu amei demais
Carolina Yume
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
Prova de Habilidades - Vestibular Vunesp 2017
1. Desenhe um autorretrato em preto e branco.
2. Desenhe um autorretrato com cores e metáforas.
2. Desenhe um autorretrato com cores e metáforas.
terça-feira, 25 de outubro de 2016
Tatuagem
A minha perna esquerda: bananeiras e quem sabe serpentes
Nas costas voando com as asas da deusa Maat que também acompanham Rihanna
Antebraço direito uma arvore baobá
O peito carrega uma mandala feita do sol e os planetas do sistema solar até os ombros
antebraço esquerdo molécula de água representação atômica, mas já desisti tem que jogar isso em outro lugar
As reliquias da morte com certeza vão ficar a cima do cotovelo esquerdo
Minha constelação de escorpião e a lua vão ficar em algum lugar com as coordenadas geográficas da minha casa
O abdomen vai estar escrito Panta Rhei em letras xicanas com a filosofia do Heráclito
E no pescoço queria ter um gavião-peneira voando...
Nas costas voando com as asas da deusa Maat que também acompanham Rihanna
Antebraço direito uma arvore baobá
O peito carrega uma mandala feita do sol e os planetas do sistema solar até os ombros
antebraço esquerdo molécula de água representação atômica, mas já desisti tem que jogar isso em outro lugar
As reliquias da morte com certeza vão ficar a cima do cotovelo esquerdo
Minha constelação de escorpião e a lua vão ficar em algum lugar com as coordenadas geográficas da minha casa
O abdomen vai estar escrito Panta Rhei em letras xicanas com a filosofia do Heráclito
E no pescoço queria ter um gavião-peneira voando...
sexta-feira, 12 de agosto de 2016
Filosofia Afroperspectivista: A Ancestralidade Viva.
Título do Projeto: Filosofia
Afroperspectivista: A Ancestralidade Viva.
1.
Resumo
O propósito deste
projeto é estudar e situar de forma mais abrangente a filosofia
afroperspectivista, isto é, temas de filosofia africana e afrodiaspórica
articulados em uma noção filosófica de ancestralidade, seja analisando e
retomando questões de pensadores africanos atuais e do passado, seja,
investigando profundamente os problemas e as relações étnico-raciais
contemporâneas da população afrodescendente pelo planeta, como no caso da
população negra do Brasil. Trata-se de um tema bastante recente na história da
filosofia ocidental, fruto de uma profunda crítica pós-colonial e
epistemológica da disciplina, e que pode e deve contribuir para a formação de
sociedades mais igualitárias e livres de todas as formas de racismo, além de
ampliar os horizontes reflexivos e produzir uma leitura mais verdadeira e
legítima da forma como se lida com a história mundial.
Palavras-chave:
Filosofia
Africana, Filosofia Afrodiaspórica, Racismo, Relações Étnico-Raciais, Pós-Colonialismo,
Epistemologia.
2.
Introdução e Justificativa
De um ponto de vista abrangente
a filosofia pode desenvolver maneiras de articular a reflexão e estruturar o
pensamento com questões transversais recorrentes do cotidiano, isso significa
que a atividade filosófica através de um exercício crítico e reflexivo pode
criar um discurso que torne visível em sua potencialidade, por exemplo, às
origens culturais, o senso de pertencimento a uma classe social, as distinções
de gênero, de sexualidade, de etnia e de geração dos seres humanos, ou seja,
muito dos aspectos que atravessam a própria realidade e que podem ser
refletidos pela razão. Contudo e mais especificamente, a tradição filosófica foi
em certa medida um campo que fez e faz poucos debates a respeito das relações
étnico-raciais, do racismo anti-negro, sobre os desdobramentos das relações
entre colonização, política e a invisibilidade concernente aos saberes
africanos, essas práticas de apagamento são definidas por especialistas no tema
como manifestações do racismo epistêmico, em que o ponto de vista europeu se
prevalece e se impõe como perspectiva única e central na produção do
conhecimento.
No fim, o que é próprio
da filosofia e pode contribuir, por exemplo, para horizontes antirracistas na
sociedade brasileira? O que a filosofia tem a dizer sobre o racismo? Existem
pontos de contato entre a filosofia e a história da África? Responder essas
questões significa entrar em um debate atual e necessário para o
desenvolvimento de um conhecimento plural, a formação filosófica é um processo
contínuo, nunca se termina de aprender e nem de se ensinar, e para que alguém
possa ser sujeito ativo e atuante dessa aprendizagem, é preciso que a filosofia
assuma o seu papel como instrumento de desconstrução e desmistificação desses
problemas, com isso dando a possibilidades de se construir novos mundos no
presente.
Esta discussão inicial alinha-se
ao contexto político brasileiro em que se vigora a lei número 10.639/03 que
torna obrigatória em todas as modalidades de ensino e níveis de educação os
estudos de História e Culturas, Africanas e Indígenas.
E se propõe a apontar como a investigação filosófica se insere nesse arranjo, como dito anteriormente na medida em que ela problematiza o mundo ao redor desperta um olhar filosófico e uma atitude crítica que é capaz de estremecer as concepções do senso comum. Nesse sentido como destaca magistralmente o filósofo brasileiro Eduardo David de Oliveira, a Filosofia da Ancestralidade, ideia central em seus estudos, aparece na encruzilhada do pensamento contemporâneo. Ela se coloca no meio dos estudos pós-coloniais e dialoga intensamente com o pensamento negro-africano, afrodiaspórico e no nesse caso com o pensamento social negro brasileiro e latino-americano.
E se propõe a apontar como a investigação filosófica se insere nesse arranjo, como dito anteriormente na medida em que ela problematiza o mundo ao redor desperta um olhar filosófico e uma atitude crítica que é capaz de estremecer as concepções do senso comum. Nesse sentido como destaca magistralmente o filósofo brasileiro Eduardo David de Oliveira, a Filosofia da Ancestralidade, ideia central em seus estudos, aparece na encruzilhada do pensamento contemporâneo. Ela se coloca no meio dos estudos pós-coloniais e dialoga intensamente com o pensamento negro-africano, afrodiaspórico e no nesse caso com o pensamento social negro brasileiro e latino-americano.
2.1.
Filosofia e História da África
Infelizmente o
continente africano carregado de diversidade cultural e os mais variados modos
de vida foi definido pela antiguidade greco-romana como um espaço desprovido de
‘civilidade’, essa lógica vai influenciar futuramente os próximos filósofos e vai
implicar na ideia de que a filosofia desenvolvida em qualquer outra região que
não fosse a europeia seja “automaticamente” deslegitimada. Reforçando a prática
histórica do eurocentrismo colonial que perpetua a ideia de que existem povos
menos desenvolvidos e epistemologicamente imaturos, ao passo que o povo europeu
seria o mais superior na escala de desenvolvimento. Como é feito por Kant em
uma declaração no século XVIII:
“Os
negros da África não possuem, por natureza, nenhum sentimento que se eleve
acima do ridículo, o senhor Hume desafia qualquer um a citar um único exemplo
em que um negro tenha mostrado talentos, e afirma: dentre os milhões de pretos
que foram deportados de seus países, não obstante muitos deles terem sido
postos em liberdade, não se encontrou um único sequer que apresentasse algo
grandioso na arte ou na ciência, ou em qualquer outra aptidão.” (KANT, ‘Observações
sobre o sentimento do belo e do sublime’, apud NOGUERA, 2011)
Essa falsa ideia de hegemonia
construída a base da violência e da destruição dos conhecimentos locais, no
nosso caso da colonização do continente africano, passou a desqualificar e
invisibilizar os saberes tradicionais, proporcionando uma completa
desconsideração do pensamento filosófico e estruturado de diversos povos, esse
fenômeno é chamado de racismo epistêmico¹,
e pode ser entendido como a desqualificação de qualquer pensamento que não seja
o ocidental, e no caso da filosofia, o racismo epistêmico sustenta que apenas o
pensamento ocidental pode garantir um olhar e qualificar o status filosófico e de
veracidade de qualquer outro saber mesmo os menos abstratos. Com isso, essa
desqualificação culmina na zoormofização sistemática desses povos fundamentando,
por exemplo, noções que embasaram a escravização da população negra e que até hoje
inspiram ofensas raciais baseadas em injúrias que comparam pessoas negras a
outros animais. Recusando assim de forma completamente equivocada a existência
de elementos presentes em todos os seres humanos em suas mais diversas
sociedades e civilizações: a capacidade de pensar e refletir criticamente sobre
a realidade. Nesse sentido, como a filosofia se desvincula do racismo
epistêmico? E como ela pode ser capaz de suscitar questões relacionadas às
relações étnicos raciais? É, justamente, problematizando a si mesma que a
filosofia encontra o caminho de articulação, encarando esse desafio de frente
ela vai ser capaz de romper essas limitações e reescrever a história da
filosofia agora em uma lógica afroperspectivista.
Logo, uma primeira
questão que surge é problematizar a própria origem da filosofia sendo considera
exclusivamente grega para muitos autores da tradição, uma vez que essa
constatação é invariavelmente problemática por ser marcada pelo racismo
epistêmico.
1- Ver
NOGUERA, Renato. O ensino de filosofia e a lei 10.639. Rio de Janeiro: CEAP,
2011 pg. 19.
2.2.
Filosofia
Afroperspectivista e a Ancestralidade.
Dentro da própria
história da filosofia exclusivamente grego-romana essa origem já se coloca como
um assunto polêmico, onde teoricamente ela é apresentada por muitos autores com
uma transição ‘forçada’ de um momento histórico mitológico para um momento histórico
mais racional do pensamento grego, a linha que divide esses períodos na verdade
é bem mais complexa e nebulosa. E com essa ambiguidade aparecem ainda mais novos
problemas colocados pelos pensadores atuais que contestam o apagamento da
influência direta do pensamento egípcio e árabe, que em meio a um período
cultural da antiguidade era marcada por relações de trocas de todos os tipos e pelos
mais variados atores, filósofos como Pitágoras afirmam em seus próprios
escritos ter estudado no Egito e atribui grande parte de suas concepções
filosóficas a esse período de estudos na África. (CARREIRA, 1994)
Se a filosofia não
“nasceu” na Grécia, onde então ela teria a sua origem? Com a constatação do
potencial e faculdades humanas essa ideia de origem ou superioridade de
pensamento fica abalada e praticamente insustentável. A partir deste
questionamento e observado de um ponto de vista mais histórico alguns estudos
apontam que os primeiros registros escritos da filosofia, enquanto pensamento analítico
e estruturado surgem na África, e mais precisamente no Egito Antigo, que se
destaca como uma das civilizações mais sofisticadas e amplamente desenvolvidas
da história do mundo. A partir das pesquisas realizadas por Cheikh Anta Diop
conseguiram-se provas de que a população do antigo Egito era negra. O
pesquisador conseguiu isolar e medir a concentração de melanina, através da
exumação de múmias e constatou-se que se tratava de membros negros da
civilização egípcia (NOGUERA 2011). Então, por que nos dias de hoje, por
exemplo, a civilização do Egito antigo ainda é retratada majoritariamente como
branca em diversas obras da mídia?
É a partir de práticas
de apropriação cultural que nega o intercâmbio comum dos saberes entre os povos
e que apaga a história real dessas trocas, é que se faz necessária a
recuperação da ancestralidade negra, pois só assim as pessoas negras poderão se
reconhecer como parte fundamental na constituição de um pensamento filosófico e
da própria história mundial. E as demais etnias e povos vão poder ter uma noção
mais adequada e realista da produção histórica dos conhecimentos.
Nesse sentindo,
conforme apontado pelo filósofo brasileiro Renato Noguera um dos livros mais
antigos da civilização egípcia é o Maat, escrito entre 1580A. C. à 1200A. C. A
obra reúne mitos e postulados filosóficos africanos resultado da reflexão de
vários autores. Erroneamente traduzido como Livro dos Mortos, o Maat é mais
precisamente o Livro da Verdade, e representa um grande trabalho a respeito de
muitos temas feitos pelos filósofos egípcios. Filósofos como Ptah-Hotep (2414
a.c), Amenemope (1290 a.c), Imhotep (2700 a.c), entre outros, deixaram papiros
com os seus escritos e postulados filosóficos com reflexões sobre a ética, o
amor, a existência, a vida após a morte, ou seja, diversas questões relativas à
condição humana inerente de cada civilização. Nesses escritos o termo mais
próximo de “filosofia” aparece em hieróglifos através da denominação “rekhet”
muito antes de Tales de Mileto e Sócrates falarem de Φιλοσοφία(Filosofia) propriamente.
Para conceituar de
forma mais nítida o legado de manifestações como essas do pensamento egípcio e
seu legado para o presente e o futuro, como também conceituar as contribuições da
cultura material e riqueza simbólica de outros momentos e lugares, os
afrodescendentes têm a necessidade de reintroduzir a África ‘perdida’ no solo
brasileiro e no mundo, seja através de uma recriação mais ou menos ideal, logo
que nunca vai ser possível recriar o passado absolutamente no presente sem cair
em uma caricatura.
Mas sim recriar epistêmica,
política, artística e até mesmo econômica a inclusão ancorada na experiência
negro-africana no Brasil, que se manifesta através da sua forma cultural seja
na capoeira de angola, no Candomblé, ou em exemplos de lógicas de sobrevivência
anticapitalistas nas economias solidárias das favelas, etc. Para tanto é
necessário se valer de pensamentos como os de Eduardo David de Oliveira, e sua afroperspectiva
Filosofia da Ancestralidade que ele define como:
“O
regime singular que os africanos souberam produzir tanto na Diáspora quanto na
África. Regime abrangente capaz de englobar todas as experiências de africanos
e afrodescendentes e, ao mesmo tempo, singularizar cada experiência com seu
sentido específico, forjado no calor do acontecimento. Aqui, Ancestralidade é,
então, mais que um conceito ou categoria do pensamento. Ela se traduz numa
experiência de forma cultural que, por ser experiência, é já uma ética, uma vez
que confere sentido às atitudes que se desdobram de seu útero cósmico até
tornarem-se criaturas nascidas no ventre-terra deste continente metafórico que
produziu sua experiência histórica, e desse continente histórico que produziu
suas metonímias em territórios de além-mar, sem duplicar, mas mantendo uma
relação trans-histórica e trans-simbólica com os territórios para onde a sorte
espalhou seus filhos.” (OLIVEIRA, 2012)
Logo a Ancestralidade
torna-se um conceito e categoria extremamente potente capaz de dialogar com a
experiência africana em solo brasileiro e no solo do resto do mundo. Se
traduzindo em um território compartilhado no simbólico e no físico, ou seja,
que se faz no corpo de si e no corpo dos outros através de uma série de trocas
intersubjetivas do legado do passado no tempo presente. Afirmar uma filosofia
afroperspectivista possibilita a valorização do pensamento de outros povos que
não seja apenas o discurso único do povo europeu no mundo atual, assim como
também faz o discurso da filosofia da libertação latino-americana, essa filosofia
é uma forma de escapar da etnocentralidade e passar a limpo a história da
humanidade, tendo um resultado de impacto grandioso.
Baseada em um fundamento
ontológico e epistemológico a Filosofia da Ancestralidade, é capaz de dar um
programa fecundo para a educação das relações étnico-raciais no Brasil e no
resto do mundo. Cultivando um legado com rico manancial epistêmico para o
empoderamento e emancipação do pensamento de jovens negras e negros no ensino
médio que se veem marginalizados e oprimidos, por exemplo, pelo próprio
discurso filosófico europeu, que também por outro lado nesse embate polifônico
da tradição pode ser potencializado e enriquecido pela contribuição do
pensamento de todos os povos, independente da sua localização no planeta.
3.
Metodologia
Este projeto esboça um
estudo interdisciplinar entre Filosofia, História e outras áreas das
humanidades. De um modo mais abrangente, podemos enquadrá-lo dentro do escopo e
do foco da Filosofia, uma vez que a maioria das referências partem desta área.
De acordo com H. S. Gentil (2005, p. 173), no campo da Filosofia “de modo geral
aceita-se que a metodologia de pesquisa define-se basicamente pela leitura e a
reflexão, incluindo o levantamento bibliográfico e a seleção da bibliografia
pertinente como atividades indispensáveis”. De acordo com isso, serão
realizadas análises e discussões dos conteúdos mencionados na bibliografia inicial
selecionada (e, caso haja necessidade, de outros títulos), através da leitura e
reflexão, incluindo registros do material estudado que formarão os relatórios a
serem entregues no decorrer da pesquisa.
4.
Objetivos
e Metas
Espera-se, depois dessa
discussão inicial ampliar e potencializar os resultados do exercício da
reflexão e interpretação da bibliografia acerca da compreensão da filosofia
afroperspectivista e seus conceitos relacionados, a fim de também produzir um
material adequado e introdutório do tema com a Ética de Amen-em-ope, para assim
ser apresentado e servir de suporte nas aulas de Filosofia, História e demais
disciplinas das humanidades no ensino médio, regida e incentivada pela lei 10.639/03.
5.
Cronograma
6.
Referências
Bibliográficas:
CARREIRA, José. “Filosofia antes dos Gregos”.
Mem Martins: Publicações Europa-América, 1994.
GENTIL, H.S. “Convite à pesquisa em Filosofia e Ciências Humanas - Orientações
básicas para elaboração de um projeto”. Integração - Ano XI, Nº 41, pgs
169-174, Junho/2005.
NOGUERA, Renato. “O ensino de filosofia e a lei 10.639”. Rio de Janeiro: CEAP, 2011.
NOGUERA, Renato. "A ética da serenidade: O caminho da barca e
a medida da balança na filosofia de Amen-em-ope" Ensaios Filosóficos,
Volume VIII – Dezembro/2013.
NOGUERA, Renato. “O conceito de drible e o drible do conceito: analogias entre a história
do negro no futebol brasileiro e do epistemicídio na filosofia” Revista Z
Cultural. http://revistazcultural.pacc.ufrj.br/o-conceito-de-drible-e-o-drible-do-conceito-analogias-entre-a-historia-do-negro-no-futebol-brasileiro-e-do-epistemicidio-na-filosofia/
(acesso em Julho de 2016).
OLIVEIRA, Eduardo David de. “Filosofia da ancestralidade como filosofia
africana: Educação e cultura afro-brasileira”. Revista Sul-Americana de
Filosofia e Educação. Número 18: maio-outubro/2012, p. 28-47.
RAMOSE, Mogobe. “Sobre a legitimidade e o estudo da filosofia africana”. Tradução Dirce
Eleonora Nigro Solis, Rafael Medina Lopes e Roberta Ribeiro Cassiano. In: Ensaios
Filosóficos, Volume IV, Outubro/2011.
SANTOS, Luis Carlos. “Ancestralidade e liberdade: Em torno de uma filosofia africana no
Brasil”. Revista Sul-Americana de Filosofia e Educação. Número 18: maio-outubro/2012,
p. 48-61.
sábado, 21 de maio de 2016
A criação artística em Bergson pela perspectiva da pintura.
1.
Introdução
Este trabalho tem por
objetivo compreender minimamente dentro do pensamento de Henri Bergson como se
dá a relação da percepção e da memória no gênero humano, tanto pela via mais
pragmática da percepção habitual, focada apenas em solucionar problemas mais
simples que nos são colocados pela necessidade cotidiana de sobrevivência para ação
no mundo, quanto pela via que vai ser mais explorada nesse texto, isto é, pelo
ponto de vista da arte e sua forma privilegiada de apreensão da realidade
enquanto duração. Para tanto vou me valer de um escopo básico da “Teoria da Arte”
Bergsoniana e exemplificar a compreensão de suas ideias e seu poder explicativo
visto pela perspectiva da pintura e da análise de obras de alguns artistas visuais
citados pelo filósofo francês.
2.
O pragmatismo da percepção habitual em Matéria
e Memória
Em Matéria e Memória Bergson
estuda profundamente o problema da relação e da continuidade do espirito e do
corpo, que remete a uma tradição filosófica dualista e seus desafios teóricos
do qual ele pretende sanar valendo de seus conhecimentos empíricos das ciências
psicológicas da época e o rigor da sua reflexão filosófica. Com isso ele vai
ser levado para o farto campo de estudo do conceito de memória em que ele
procura representa-la precisamente como o ponto de interseção entre o espírito
e a matéria.
De frente ao seu problema
Bergson adota uma posição introspectiva e intuitiva para a análise da
experiência da percepção, com o objetivo de se desprender das ideias
pré-concebidas de outras teorias do espírito ou dos preconceitos do senso
comum.
Desse modo Bergson chega a
conclusões originais e superinteressantes que serão objeto de polêmicas e
intenso debate dentro dos círculos intelectuais que lidam com essas temáticas. Para
ele o mundo percebido pelos sentidos e a intuição é recheado pela presença de
imagens que agem e reagem umas sobre as outras conforme as suas naturezas,
porém em sua autoanálise a uma imagem que prevalece, é a imagem do corpo, pois
o ser humano é capaz de conhecê-la externamente pelas percepções, mas também
conhecê-la internamente pelas suas afecções. E dada às diversas formas de
afecções presentes no corpo ambas possuem pelo menos um elemento comum: o
convite a agir. O filósofo francês sintetiza essa ideia nesta passagem do
Capitulo I de Matéria e Memória:
“Tudo
se passa como se, nesse conjunto de imagens que chamo universo, nada se pudesse
produzir de realmente novo a não ser por intermédio de certas imagens
particulares cujo modelo me é fornecido por meu corpo”. (pg 12)
Logo como apontado por
Bergson o corpo no conjunto do mundo material é uma imagem que atua como as
outras interagindo no mundo através da ação de receber e devolver movimento,
mas com uma diferença fundamental: o corpo é capaz de escolher em certa medida
a maneira de como vai devolver o que recebe. Longe de ser visto como um
mecanismo passivo o corpo é um objeto destinado a mover objetos sendo assim um
centro de ação, resta entender minimamente como se dá essa escolha em meio à
seleção de imagens efetuada por ele.
Para isso o filósofo parte
da ideia de que a percepção aparece como um intervalo entre ações e reações do
organismo, e o corpo munido do sistema nervoso, assume o papel de conduzir ou
bloquear uma ação dentro do ambiente, abrindo espaço para uma indeterminação do
agir que dá certa margem de independência de ação do ser vivo.
Com isso em mente conforme
apontado por Bergson é possível avaliar a quantidade e a distância das coisas e
de como elas se relacionam entre si e na forma como o corpo escolhe agir:
“Qualquer
que seja essa relação, qualquer que seja, portanto a natureza íntima da
percepção, pode-se afirmar que a amplitude da percepção mede exatamente a
indeterminação da ação consecutiva, e consequentemente enunciar esta lei: a
percepção dispõe do espaço na exata proporção em que a ação dispõe do tempo”.
(pg 29)
Nesse momento do texto de Matéria e Memória é
interessante observar como a questão da interação do corpo com o meio externo
vai tomando complexidade e vai ter lidar a partir daqui com o problema da
passagem do tempo, pois cada ato de percepção é um novo ato, e isso pressupõe outras
experiências anteriores e estados psicológicos. Para lidar com esse problema
Bergson mais adiante, vai passar a opor a percepção atual, ou "pura"
daquilo que vai chamar de lembrança e trabalhar em um sentido de também estabelecer
uma teoria da memória "pura".
Na passagem da percepção das
imagens para o nível da consciência, ele introduz a ideia de que não há
percepção que não esteja impregnada de lembranças, logo a memória se impõe no
desenvolvimento do sujeito com o tempo através da experiência com real, e
depois de "consolidada" e constantemente atualizada ela funciona
dentro desse "circuito" da percepção como uma variável dominante,
combinando as memórias com o processo corporal e o presente da percepção:
“Aos
dados imediatos e presentes de nossos sentidos misturamos milhares de detalhes
de nossa experiência passada. Na maioria das vezes, estas lembranças deslocam
nossas percepções reais, das quais não retemos então mais que algumas
indicações, simples "signos" destinados a nos trazerem à memória
antigas imagens.” (pg 30)
Portanto a memória possui
uma função decisiva no processo psicológico permitindo a relação do corpo no presente com
o seu passado e interferindo ativamente no processo 'atual' de selecionar as
imagens relevantes para serem representadas na consciência.
Outra característica
fundamental é que essa memória é cumulativa e crescente dispondo da experiência
adquirida pelo contato com a realidade. Para tornar o entendimento dessa
relação mais didático Bergson pensou em representar esse espaço profundo da
memória e o espaço raso e pontual da percepção imediata através da figura geométrica
de um cone invertido no Capítulo III de Matéria e Memória:
Onde conforme Bergson
compreende que:
“Se
eu representar por um cone SAB a totalidade das lembranças acumuladas em minha
memória, a base AB, assentada no passado, permanece imóvel, enquanto o vértice
S, que figura a todo momento meu presente, avança sem cessar, e sem cessar
também toca o plano móvel P de minha representação atual do universo. Em S
concentra-se a imagem do corpo; e, fazendo parte do plano P, essa imagem
limita-se a receber e a devolver as ações emanadas de todas as imagens de que
se compõe o plano.” (pg 178)
A partir desse esquema
explicativo vemos em linhas gerais como funciona o circuito da percepção e da
memória, na base do cone estariam às lembranças que 'descem' para o presente,
onde a percepção também tem o poder de evocar lembranças, os dois atos,
percepção e lembrança se penetram e trocam sempre algo de suas substâncias.
Vale a pena ressaltar que esses elementos brevemente explicados fazem parte da
teoria da percepção 'pura' e da teoria da memória 'pura' de Bergson e que podem
ser mais aprofundadas, o interessante que esse 'puro' até colocado entre aspas,
só existe de direito e não de fato, pois nós vivemos através de nossa condição
corpórea os mistos. Essa separação radical no estudo vale mais pela facilidade
de explicação e até decorre acredito que do limite da nossa linguagem como
forma de expressão, que através da análise da razão nos força sempre a
estabelecer distinções.
Logo é importante concluir
também dessa parte, para compreender melhor o objetivo do trabalho, que a
memória na base do cone teria uma função prática de limitar a indeterminação do
pensamento e da ação a fim de influenciar o sujeito a reproduzir formas de
comportamento que já deram certo, porque, por exemplo, a percepção cotidiana
precisa do passado de que algum modo se conservou, para agir de forma
pragmática e em muitos casos repetitivamente para sobreviver no mundo.
3.
Breve
estudo da “Teoria da Arte” Bergsoniana.
Antes de compreender a ideia
de arte no pensamento de Bergson, seu método não tem a pretensão de ser
absolutamente sistemático e para isso é preciso explorar sua obra como um todo
através dos ensaios, conferências etc por ele, no nosso caso a partir da
conclusão tirada na parte 2 desse trabalho, como visto nossa condição humana na
vida comum exige que tomemos as coisas na relação que elas têm com nossas
necessidades, o que acaba implicando em uma percepção meramente pragmática,
como atesta Bergson em seu ensaio sobre "O Riso":
“Eu
olho e acredito ver, dou ouvidos e acredito ouvir, estudo-me e acredito ler no
fundo de meu coração. Mas o que vejo e ouço do mundo exterior é simplesmente o
que meus sentidos dele extraem para aclarar minha conduta; o que conheço de mim
mesmo é o que aflora à superfície, o que toma parte da ação. Meus sentidos, e
minha consciência, portanto, só me entregam da realidade uma simplificação
prática.” (Capitulo 3, pg 113)
Logo a percepção nesse
sentido auxilia a ação e isola no conjunto da realidade aquilo que interessa,
mostrando menos das coisas como elas são de fato e focando apenas em mostrar aquilo
que se pode delas tirar proveito.
Conforme dito pelo filósofo
é como se a natureza coloca-se um véu espeço na consciência dos seres humanos
comuns, o que vai ter consequência até na própria filosofia quando trata das mudanças
presentes na realidade e a consequente 'condenação' dos sentidos na história do
pensamento ocidental por eles distanciarem a ‘verdade’ em uma lógica mais
abstrata e conceitual. Porém a mesma natureza que jogou esse véu espeço sob a percepção
limitada da maioria dos seres humanos, para outros foi mais grata, os artistas
talvez por acidente recebessem um véu quase transparente na metáfora de Bergson,
cujos sentidos e consciência não são tão voltados para o sentido prático das
coisas, mas quando olham algo veem por ele mesmo, percebem por perceber sem um objetivo
pragmático, observam assim pelo prazer de contemplar a totalidade do momento ou
estado em que vivem, pois em não pensar tanto em usar a percepção, desprendidos
dela percebem um maior número de coisas por serem capazes de notarem a
individualidade das imagens/coisas.
E por esse acidente, cada
artista com seu véu e particularidade envolvida se dedica ordinariamente a uma arte,
que tendo em vista a multiplicidade dos seres humanos vai seguir segundo sua
diversidade cada qual em sua especialização e predisposição:
"Aquele
que se apegará às cores e às formas (...) ele nos afastará dos preconceitos de
forma e de cor que se interpunham entre nosso olho e a realidade. E realizará
assim a mais elevada ambição da arte, que é revelar-nos a natureza. - Outros,
ao contrário, se voltarão para si mesmos.(...)e por meio de arranjos
ritmados de palavras, que chegam assim a
organizar-se juntas e a animar-se com
vida original, eles nos dizem, ou melhor, nos sugerem, coisas que a linguagem
não foi feita para exprimir. - Outros se aprofundarão ainda mais. Debaixo das
alegrias e das tristezas que a rigor se podem traduzir em palavras, captarão
alguma coisa que nada mais tem de comum com a palavra. (...) ao acentuar essa
música, eles a imporão à nossa atenção; e nos levarão a inserir-nos involuntariamente
nela, como transeuntes que entram na dança." (O Riso. Capitulo 3 pg 117)
Portanto como visto pelos
três gêneros de expressão expostos por Bergson, ou até por outros gêneros a
mais não citados, é comum que a arte tenha como objetivo afastar os símbolos úteis
visto da perspectiva de uma ação meramente pragmática, generalista ou
proveniente de uma convenção social, a arte nos coloca face a face com a
realidade mesma. Em outras palavras, com inspiração no trabalho de Franklin Leopoldo
e Silva em "Bergson, Proust - Tensões do tempo" essa perspectiva
pragmática é fruto de nosso espirito concentrado e tensionado como naquela
representação de Bergson na parte 2 desse trabalho, onde a ponta do cone toca o
real no domínio em que ele pode ser útil, já a condição da arte é o grande ou extremo
relaxamento desta tensão, para o Franklin como se dá isso e por que alguns
passam por essas experiências criativas é um grandioso enigma, o que importa pra
ele é que a criação artística decorre dessa descontração e distração onde o
espírito distende e a percepção ampliada percebe mais profundamente, o que em
uma visão simplista parece como um paradoxo, mas visto tudo que estudamos do
pensamento em Bergson sugere ser bem plausível. Longe de querer entender a
causa das obras artísticas criadas pelas regras do gênio, é importante também
falar de seus efeitos, e a forma como Bergson mede relativamente isso: nesse
caso o filósofo pela sua lógica mede a partir da sinceridade de uma obra, pois
quanto mais verdade ela carregar maior vai ser seu poder convicção. Porque a
sinceridade é comunicativa, e sendo desvelada pelo artista e o seu efeito tende
a ser cada vez mais universal.
4.
A
perspectiva da pintura: Análise de obras de Turner e Corot.
Vimos que a arte é uma via
privilegiada para que os seres humanos tenham um contato revelador com a realidade
mesma, Bergson dá uma atenção maior em alguns momentos de sua obra, carregada
de metáforas imagéticas e visuais, para a pintura que segundo ele nada mais
pode mostrar tão claramente esse principio revelador da verdade pela arte,
porque os olhos sensíveis dos artistas visuais podem se colocar como os olhos
de todos os seres humanos.
E em sua sinceridade quase didática pode
fazer com que muitas pessoas cerceadas pelo pragmatismo da vida comum possam
ver o mundo de uma forma ampliada e transformadora, conforme ele mesmo atesta
em "A percepção da Mudança" no ensaio "O Pensamento e o
Movente":
"Um
Corot, um Turner, para citar apenas estes, perceberam na natureza muitos
aspectos que não notávamos. - Acaso se dirá que não viram, mas criaram que nos
entregaram produtos de sua imaginação, que adotamos suas invenções porque nos
agradam e que simplesmente nos divertimos olhando a natureza através da imagem
que os grande pintores dela nos traçaram? - Isso é verdade, em certa medida;
mas, se fosse unicamente assim, por que diríamos acerca de certas obras - a dos
mestres - que elas são verdadeiras? Onde estaria a diferença entre a grande
arte e a pura fantasia? Aprofundemos o que experimentamos diante de um Turner
ou de um Corot: descobriremos que, se os aceitamos e os admiramos, é porque já
havíamos percebido sem aperceber. Era, para nós, uma visão brilhante e
evanescente, perdida nessa multidão de visões igualmente brilhantes, igualmente
evanescentes, que se recobrem em nossa experiência usual como "dissolving
views" e que constituem, por sua interferência recíproca, a visão pálida e
descolorida que temos habitualmente das coisas" (pg 156)
O pintor em sua empreitada é
capaz de isolar e fixar tão bem essas imagens dissolvidas e continuas do real
em uma tela, que mesmo com as pinceladas de alguns instantes é capaz de
representar uma imagem da duração profunda, bem diferente do nosso uso habitual
dos olhos focados em atingir um ou outro objetivo, em contato com uma pintura
somos impedidos de não aperceber na realidade aquilo que o próprio artista viu
nela. Antes de analisar as obras escolhidas de Corot e Turner, precisamos
situá-los como artistas que pré-concebem muito o estilo Impressionista,
movimento artístico contemporâneo a Bergson e que de certa forma dialoga muito
com seu pensamento.
O Impressionismo em linhas
gerais herda um legado da pintura realista, porém o realismo em uma visão bem
geral foca tanto em ver a verdade de uma forma espacializada e geométrica que
passa a se "tornar cega de tanto ver" como apontado por Franklin
Leopoldo em artigo estudado para esse trabalho.
Por isso o impressionista
reage a essa cegueira generalista e passa a buscar a atualidade do efêmero
visto de núcleo temporal que impressiona a consciência com a individualidade do
momento que é impressa de forma sútil e poderosa na memória, a luz muda
constantemente no dia e pintar por exemplo, em variados momentos do dia cria
quadros bem diferentes e com uma carga emocional diversa de um mesmo lugar, o
artista investiga e manipula ao seu modo esses elementos, a obra pressupõe
certa transitoriedade em sua narrativa com o objetivo de buscar um estado puro
e ampliar horizontes da observação.
Jean-Baptiste-Camille Corot
(1796 - 1875) foi um famoso pintor francês de retratos, mas em seus estudos de pinturas
de paisagens mesmo sendo formado em uma tradição Neoclássica, antecipou muitas
das inovações da pintura ao ar livre impressionista rompendo com muitas regras
nas quais foi educado. Um exemplo é a obra de 1873 com título de Bornova,
İzmir:
Corot - Bornova, İzmir. 1873
Essa obra é uma pintura ao
ar livre na cidade de Bornova na Província de Izmir na Turquia, diferente da
maioria dos trabalhos em estúdio e baseados em modelo vivos, Corot já ia de
encontro com a realidade através de muitas viagens pra construir suas pinturas
em ambientes pastorais.
Essa tem alguns elementos pictóricos (como as
figuras humanas representadas) construídos pela memória, que na pintura também
tem seu fundamental papel de relevância e necessidade concepção de uma obra, mas
nesse quadro já conseguimos vislumbrar elementos da pintura instantânea dos
impressionistas na observação da luz do dia bem característica e observação de
outros elementos da paisagem, técnicas que vão ser radicalizadas pelos pintores
posteriores.
Joseph Mallord William
Turner (1775 - 1851) foi um pintor romântico inglês, considerado por muitos especialistas
um dos precursores da pintura moderna, e um prefácio romântico do
Impressionismo em função dos seus estudos sobre cor e luz. Turner já está bem
mais próximo dos Impressionistas do que Corot, sua obra é carregada de
trabalhos ao ar-livre e inclusive muitos feitos com aquarela, além da pintura a
óleo, ele intuitivamente, conhecido também como o "Pintor da Luz"
antecipou muitas técnicas impressionistas como da pintura instantânea guiada
pelo momento, e rompeu muito com o formalismo geométrico do realismo, que menos
forte também era presente nas pinturas românticas, buscando sempre não pintar ideias
figurativas, mas pintar a luz que as refletem conforme sua variação nos corpos.
Nesse sentido pensando na teoria da arte bergsoniana, ele faz um esforço de
fugir desses conceitos figurativos e bem determinados colocados pela memória
habitual aliciada a esquemas de representações mais matematizados, definidos e especializados,
como por exemplo, um arranjo de figuras dentro de um espaço abstrato guiado e
calculado por técnicas de perspectiva. Conseguimos ver em sua obra muitos
elementos de continuidade entre os "objetos" e sua ligação imanente
com o meio, pra não dizer expressão íntima da ligação de tudo com o universo.
Como podemos observar e analisar na obra de
1844, Chuva, Vapor e Velocidade - O Grande Caminho de Ferro do Oeste:
Rain, Steam and Speed - The Great Western Railway
Ela trata-se de uma paisagem
vista através da chuva em contraste com o vapor e o fumo de uma locomotiva. Segundo
relatos conforme o livro "Neoclássicos, Românticos e Realistas" dizem
que Turner fez uma cuidadosa observação direta desse lugar, e se esforçou em reter
na mente a imagem, e logo não hesitou em sentar-se durante quinze minutos sob
forte chuva com os olhos fechados, para poder guardar fielmente tudo quanto
tinha observado. É superinteressante notar como a memória junto da percepção
mais alargada pode ser poderosa. Depois desse processo, em que nosso esforço analítico
tenta ingenuamente narrar como uma fórmula, teve como resultado uma composição
de contrastes apresentando a mutação do mundo, da paisagem pastoral e a imponente
e locomotiva no viaduto. É impressionante como até mesmo um instrumento
puramente técnico como uma locomotiva ganha ares de um objeto em plena harmonia
com o meio, conforme representado por Turner e não como um veículo transgressor
que se impõe a fim de atingir seus objetivos, como muitos outros artistas vão retratar,
mas naquele instante de inspiração, e dada às condições meteorológicas essa
confluência fazia todo o sentido no olhar inspirado do artista pela sua memória
e percepção.
5.
Conclusão
Acredito que tenha
conseguido atingir minimamente os objetivos desse trabalho, longe de esgotar o
tema é impressionante como o pensamento de Henri Bergson é poderoso para
entender vários problemas filosóficos e práticos da vida humana. Sua visão de arte, fruto de ideias tão
vigorosas sobre o corpo e o espirito, sem dúvidas é um instrumento importante
para interpretar uma série de outros temas, isso porque ficamos ‘cerceados’ só pela
especificidade da pintura, mas a análise pode se estender como muitos especialistas fazem para uma série
de outros modos de expressão. Mas é bonito também dentro da história do
pensamento ocidental, como Bergson valoriza privilegia a arte como forma de
conhecimento, longe de produzir obras de segunda visão ou terceira visão da “verdade”
ela se coloca como um meio fundamental pra se apreender a verdade concreta,
longe de concepções abstratas calcadas em outro mundo ou em uma especulação no ‘imóvel’.
6.
Referências
Bibliográficas
BERGSON,
Henri. Matéria e Memória: Ensaio sobre a
relação do corpo com o espírito. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
BERGSON,
Henri. O Riso Ensaio sobre a
significação da comicidade. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
BERGSON,
Henri. A percepção da mudança in O pensamento e o Movente.
BOSI,
Ecléa. Bergson, ou a Conservação do
Passado in Memória e Sociedade. Lembranças de Velhos. São Paulo:
Companhia das Letras, 1994.
SILVA,
Franklin Leopoldo e. Bergson, Proust - Tensões do tempo.
Diversos
Autores. Neoclássicos, Românticos e
Realistas (II), Coleção Génios da Pintura, Editora Abril Cultural, Editor
Victor Civita, 1984 (Acesso via Wikipédia).
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